Guia de viagem pelo mundo dos livros

A idade da Inocência

O primeiro romance escrito por uma mulher a ganhar o prémio Pulitzer para ficção, em 1921, «A idade da inocência» é uma obra que merece ser saboreada na sua língua original. Retrata um romance, passado em Nova Iorque na década de 1870, que esbarra em convenções sociais preconceituosas e hipócritas, um tema intemporal que pode facilmente ser transposto para outros contextos. Mas mais do que o enredo, é a forma como este é apresentado que cativa e seduz o leitor. Uma escrita elegante descreve as subtilezas do desabrochar de uma relação que não é bem vista socialmente, entre um homem comprometido e a prima da sua noiva, uma mulher divorciada e sofrida.

Como é um amor censurado, é nas entrelinhas que se desenrola, nos pequenos gestos, palavras e olhares cheios de significado para os dois protagonistas, enquanto permanecem indiferentes para quem os rodeia. Mas o afeto entre os dois é incontrolável, acabando por transbordar e evidenciar-se. E a sociedade é cruel quando confrontada com sentimentos que a desafiam, que são anulados sem piedade, dando lugar a uma existência banal, despojada dos voos do coração.

“There was one episode, in particular, that held the house from floor to ceiling. It was that in which Harry Montague, after a sad, almost monosyllabic scene of parting with Miss Dyas, bade her good–bye, and turned to go. The actress, who was standing near the mantelpiece and looking down into the fire, wore a gray cashmere dress without fashionable loopings or trimmings, moulded to her tall figure and flowing in long lines about her feet. Around her neck was a narrow black velvet ribbon with the ends falling down her back.

When her wooer turned from her she rested her arms against the mantel–shelf and bowed her face in her hands. On the threshold he paused to look at her; then he stole back, lifted one of the ends of velvet ribbon, kissed it, and left the room without her hearing him or changing her attitude. And on this silent parting the curtain fel”.

The-Age-of-Innocence

Título: The age of innocence

Autor: Edith Wharton

Editora: Wordsworth Classics

Ano: 1994

Em português está editado pela Publicações Europa-América

Um dia na vida de Ivan Denisovich

Aleksandr Soljenitsin, vencedor do Prémio Nobel em 1970, conheceu pessoalmente os horrores dos campos de concentração soviéticos, os Gulag, onde foi condenado a passar vários anos. A sua experiência é retratada nesta obra singular inteiramente passada num único dia na vida de um prisioneiro detido por um regime totalitário desumanizador. Rodeado das personagens tipo que se poderiam encontrar neste contexto, do revoltado ao corrompido, as suas estratégias de sobrevivência são descritas de forma simples e direta, levando a refletir sobre o que resta de um homem num sistema que o procura anular. E o que sobra é a luta pela vida, na sua expressão mais básica, o cumprimento das tarefas diárias em condições extremas enquanto se procura maximizar os ganhos e reduzir as perdas.

É um dia vulgar, como tantos outros, sem nenhum acontecimento extraordinário a assinalá-lo. E como tudo é relativo, é um «dia bom» para alguém injustamente privado da sua liberdade num regime onde a justiça e a liberdade nada significam. Porque é bom chegar ao fim do dia vivo, quando mais nada nos é dado a esperar.

“Shukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe da brigada fixara bem as rações; construíra uma parede e tirara prazer do seu trabalho; arranjara aquele pedaço de metal e conseguira passa-lo; recebera qualquer coisa de Tsezar, à noite; comprara o tabaco. E não caíra doente. Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz”.

Título: Um dia na vida de Ivan DenisovichIvan Denisovich

Autor: Aleksandr Soljenitsin

Editora: Círculo de Leitores

Ano: 1974

A Grande Mudança

«A Grande Mudança» é uma leitura obrigatória para qualquer amante de livros. Merecido vencedor do National Book Award e do Prémio Pulitzer, segue uma figura improvável do século XV, Poggio Bracciolini, na sua busca pelo conhecimento. Servidor de pontífices romanos enquanto escriba especializado em documentação oficial, a sua verdadeira paixão eram os manuscritos antigos que procurava incessantemente em mosteiros recônditos espalhados pela Europa. Numa dessas buscas encontrou o que procurava, um manuscrito que iria mudar o mundo.

Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, poema datado do século I a. c., expõe a doutrina epicurista desenvolvida na Grécia Antiga, segundo a qual o domínio de si próprio seria o objetivo daquele que almeja a verdadeira felicidade. A filosofia – não a doutrina religiosa – constituiria o meio para atingir esse fim, ideia perigosa nos tempos de Bracciolini, que apesar disso o divulgou. Stephen Greenblatt expõe o extraordinário impacto que a divulgação do poema teve no desenvolvimento do pensamento moderno, ao inspirar figuras marcantes como Galileu, Darwin e Einstein. Uma obra essencial para compreendermos o mundo em que vivemos.

“O que o filósofo grego oferecia não era ajuda para morrer, mas ajuda para viver. Livre da superstição, pensava Epicuro, ficava-se livre para procurar o prazer”.

Título: A Grande MudançaMudança

Autor: Stephen Greenblatt

Editora: Clube do Autor

Ano: 2011

O livro do chá

A pura beleza dos livros pode ser encontrada nesta obra sobre o ritual do chá, escrita no início do século XX por Kakuzu Okakura, intelectual japonês e crítico de arte de referência, tanto no seu país como no ocidente. Eloquente e refinado, exprime a sua amargura perante a hegemonia ocidental que na época se afirmava, ao mesmo tempo que enaltece um símbolo da cultura oriental que representa uma filosofia de vida mal compreendida por aqueles que a não respeitam.

A capacidade de apreciar as coisas simples da vida, os pequenos gestos, objetos, locais, situações, saboreando-os demoradamente segundo um ritual preciso. Parar para sentir a vida, escutá-la, entendê-la profundamente, sem distrações ou excessos, pois “quem é incapaz de reconhecer em si próprio a pequenez das grandes coisas, está apto a subestimar nos outros a grandeza das pequenas coisas”. E assim o chá atravessa fronteiras, línguas, culturas, civilizações, para constituir a ponte na qual a humanidade se encontra, despojada de artifícios e superficialismos. Um pequeno grande livro, ideal para a cabeceira de quem ambiciona o infinito.

“O céu da humanidade moderna está de facto despedaçado na luta ciclópica pela riqueza e pelo poder. O mundo anda às cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento compra-se com uma má consciência, a benevolência pratica-se por amor à utilidade. O Oriente e o Ocidente, como dois dragões lançados num mar fermentoso, esforçam-se em vão por voltar a merecer a joia da vida. Precisamos novamente de uma Niuka que conserte a grandiosa devastação; aguardamos o grande Avatar. Entretanto, tomemos um gole de chá. O ardor da tarde ilumina os bambus, as fontes murmuram com gosto, o sussurro dos pinheiros escuta-se na nossa chaleira. Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas”.

Título: O Livro do CháChá

Autor: Kakuzu Okakura

Editora: Biblioteca editores independentes / Cotovia

Ano: 2007

Terry Pratchett

Desta vez não se apresenta um livro, mas a série «Discworld», iniciada em 1983 e com 40 títulos publicados, da autoria do escritor inglês Terry Pratchett, recentemente falecido. Retrata um mundo imaginário em forma de disco sustentado por 4 elefantes por sua vez apoiados numa tartaruga gigante. Com um sentido de humor negro refinado, Terry Pratchet descreve as peripécia dos seus habitantes, bruxas, anões, trolls, feiticeiros, pessoas com queda para a desgraça e mesmo uma morte suis generis, todos eles parábolas do ser humano mais tradicional que habita este nosso mundo.

Não é necessário ler toda a série por ordem, pois cada livro pode ser lido independentemente como uma história autónoma, apesar de eventuais referências a acontecimentos passados. A oferta em português é escassa e dispersa, com edições da Caminho, da Saída de Emergência e da Temas e Debates. Não há razão para a escassez da oferta a não ser a insuficiência da procura, totalmente injustificada num contexto em que os livros de fantasia estão na moda, pois a qualidade da série Discworld ultrapassa em muito outras obras do mesmo género. É inteligente, divertida, imaginativa, educativa e, acima de tudo, proporciona um prazer imenso a quem aprecia um bom livro.

“Bad spelling can be lethal. For example, the greedy Seriph of Al-Ybi was once cursed by a badly educated deity and for some days everything he touched turned to Glod, which happened to be the name of a small dwarf from a mountain community hundreds of miles away who found himself magically dragged to the kingdom and relentlessly duplicated. Some two thousand Glods later the spell wore off. These days, the people of Al-Ybi are renowned for being unusually short and bad tempered”.

Excerto retirado de «The wit and wisdom of the Discworld», de Stephen Briggs (Corgi Books)

Magia

Autor: Terry Pratchett

Editoras: Caminho, Saída de Emergência, Temas e Debates

Os cús de Judas

Será um diálogo com alguém que não nos compreende um monólogo? Nos «cús de Judas» um médico veterano da guerra colonial relata uma experiência de intenso sofrimento a quem a não viveu, a uma mulher que acabou de conhecer, a nós leitores. Empurrado pelo álcool, parece relatá-la para si próprio, sem esperar retorno, empatia, compreensão. Transmite o desencanto dos Homens irremediavelmente sós, isolados por uma experiência transformadora que não conseguem partilhar.

A leitura de «Os cús de Judas» concede uma nova dimensão à capacidade de compreender o outro, principalmente quando o outro é alguém que viveu uma situação limite. Relata um episódio fundamental e insuficientemente conhecido da nossa história, que não nos deve ser alheio, pois quem o viveu está cá, no meio de nós, e o seu sofrimento permanece, agravado pela incapacidade de o comunicar. Acima de tudo, é um livro obrigatório por estar maravilhosamente escrito, de uma forma impossível de descrever.

“Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Lacusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilômetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e íamos morrer, íamos morrer e chovia, chovia, sentado na cabina da camioneta, ao lado do condutor, de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão, iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia”.

Título: Os Cús de JudasCús de Judas

Autor: António Lobo Antunes

Editora: Publicações Dom Quixote

Ano: 1983

Holocausto Brasileiro

«Holocausto Brasileiro» é uma leitura interessante pelo tema que aborda. Apoiada em inúmeros testemunhos e registos fotográficos, a jornalista de investigação Daniela Arbex expõe a triste realidade do hospício de Colônia, uma suposta instituição psiquiátrica que ao longo do século XX recebeu os inconvenientes da sociedade – homossexuais, prostitutas, mulheres desprezadas pelos maridos, epiléticos. Sem terem sido sujeitos a qualquer avaliação clínica, os pacientes eram ali encerrados em condições infra-humanas, despojados de todos os bens, direitos, relações. Conviviam numa imundice abjeta e viviam em total promiscuidade, crianças misturadas com adultos. Quando morriam os seus corpos eram vendidos a faculdades de medicina. Por ali passaram 60 000 seres humanos.

O livro faz referência à luta pela humanização dos cuidados de saúde mental impulsionada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, que defendia a abolição dos hospitais psiquiátricos, o retorno dos pacientes à comunidade e a extinção dos internamentos abusivos, sem critérios clínicos que o justificassem. Uma mudança de paradigma nem sempre fácil na sua concretização, pois a falta de estruturas comunitárias de apoio pode empurrar as famílias afetadas por questões de saúde mental para situações de desespero e os doentes para condições de indigência, um tema que daria para outro livro.

“Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio do Colônia. O objetivo era que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas”.

Holocausto

Título: Holocausto Brasileiro

Autor: Daniela Arbex

Editora: Guerra e Paz

Ano: 2014

O Nome da Rosa

Qualquer romance histórico que se preze apresenta na contracapa a inevitável comparação com «O Nome da Rosa», o que se compreende porque é um livro de referência, mas não deixa de ser desadequado considerando que é uma obra maior da literatura que não pode ser generalizada. Não é comum ter a erudição, inteligência e sensibilidade de Umberto Eco, que num momento de génio produziu esta obra extraordinária, pelo que as imitações reproduzem apenas o esqueleto do livro mas não o essencial. Apresentam bispos maldosos a perseguir monges atormentados por causa de um qualquer manuscrito perdido, mas não afloram o essencial de uma obra única.

«O Nome da Rosa» é uma intriga policial inteligentíssima, que gere de forma genial o suspense e o mistério que este estilo implica. É um romance histórico que faz um enquadramento excecionalmente detalhado e preciso de uma época conturbada. É um drama humano profundo, que retrata a relação mestre/discípulo com uma sensibilidade rara. É um belo exercício de escrita, subtil e rico, que dá gosto reler. É, acima de tudo, uma obra que merece ficar na história da literatura e que retrata um momento essencial dessa mesma história: a censura da igreja católica medieval às obras da antiguidade clássica pré cristã, escondidas em bibliotecas impenetráveis, apagadas de pergaminhos reutilizados, copiadas por monges que as não deviam tentar compreender, uma tarefa que se vem a revelar impossível para as mentes inquisitivas.

 “Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica”.

Eco

Título: O Nome da Rosa

Autor: Umberto Eco

Editora: Difel

Ano: 1996

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